quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Há 4 anos

Há 4 anos atrás era sexta-feira. Um dia normal de trabalho.
A meio da manhã começou o incómodo, os primeiros sinais... não os percebi. O médico também não.
Disse-me para descansar, tomar magnésio, buscopan para as dores.
Ao início da tarde, ao fim de dose dupla de comprimidos, as dores eram insuportáveis e apareceu a perda de sangue, bem pequenina.
Demorou-nos (demorou-me) a tomar a decisão de ir ao hospital.
A viagem foi uma tortura.
No hospital já a perda de de sangue era enorme.
O veredicto: trabalho de pré abortamento.
21 semanas.
21 semanas sem qualquer problema, sem qualquer dor, sem qualquer enjoo. Uma gravidez santa, como lhe costumava chamar... até ter terminado abruptamente.

Em momento algum, mesmo com as dores e com o sangue, me passou pela cabeça tal desfecho,até mo terem dito. Pode parecer estranho mas foi mesmo assim. Talvez pela ignorância que fez com que não fosse para o hospital logo ao primeiro sinal, talvez um mecanismo de defesa.

Naquele dia, perdi um pouco de mim, que demorei muito a reencontrar (ainda que apenas parcialmente).
É um ciclo fechado, especialmente depois do nascimento da minha linda S.
Mas por vezes penso nisto e ainda me corre uma lágrima.

Acho que é algo que nunca se esquece, apenas fica mais ligeira a dor.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Dia Mundial da Prematuridade



Ontem foi o Dia Mundial da Prematuridade.
Nunca me tinha apercebido dele até ao nascimento da minha pequenina. Por isso percebo que passe ao lado da maioria das pessoas, ainda que quase todas conheçam alguém que nasceu ou que teve um bebé antes do tempo.

A verdade é que a prematuridade (como tantas outras coisas, sejamos francos) só afeta verdadeiramente quem a vive.
Mesmo quem tenha tido familiares, amigos, colegas, conhecidos que passaram por isso, não tem a real noção do que é ter um filho prematuro. 
A minha irmã teve dois prematuros: um de 35 semanas e outro de 26. Ambos nasceram antes da S. 
Tive por isso possibilidade de saber o que era isso de ter um filho antes do tempo, demasiado pequeno para estar já cá fora. Mas só o soube a sério quando a S. nasceu. Até ali, achava o que a maioria acha: que é uma questão de paciência e esperar que eles cresçam.
Não é. É muito, muito mais que isso. É sofrer por sairmos do hospital sem eles, é temer pela sua vida, é o desespero de não poder fazer nada diretamente para os ajudar...

Lembro-me de, ao fim de umas 2 semanas do internamento, num dia que deve ter sido especialmente desgastante, enviar uma mensagem à minha irmã dizendo: "Só agora percebo o que passaste. Tu és uma heroína!"

A S. passou, depois desta mensagem, ainda mais umas 14 semanas na UCI de Neonatologia do HSJ. Foram 115 longos dias de internamento. Não vou mentir! Não foram 115 dias de incertezas, nem 115 dias maus. Alguns dias foram bons! E a reta final já tem pouco de incertezas.
Mas foi uma época muito dura. 
Suficientemente dura para nos deixar sem vontade de tentar um segundo filho.



quarta-feira, 9 de novembro de 2016

The dark ages are coming

Há uns 7 anos, tive uma conversa com o meu marido em que lhe perguntava se seria infeliz se ficássemos só os dois, se não tivéssemos filhos.
Ter filhos nunca foi verdadeiramente um objetivo de vida e a minha visão do mundo dizia-me que pôr crianças no mundo era quase uma crueldade.
A crise já se tinha instalado, já havia países em que a extrema direita ganhava eleições, as perspectivas para o futuro não eram grande coisa.

Ele dizia-me que eu era uma pessimista, que isso não eram razões para não se ter filhos e não sei que mais.
Deixei-me convencer. Duas gravidezes e uma filha depois, não me arrependo nada de a ter, adoro-a, é a luz da minha vida.

Mas hoje, com estes resultados eleitorais dos EUA, pergunto-me se não teria ficado melhor quieta. Se este mundo em que estamos não causará tanto sofrimento à minha filha, que me faça pensar se não teria sido melhor opção que ela nem sequer tivesse nascido.



Temo muito pelo futuro. Temo por mim, mas acima de tudo, por ela.
Acho que vêm aí tempos muito negros.
Espero estar errada, mas temo estar certa! 

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Para mais tarde recordar #13

A S. faz uma mini asneira (que já não me recordo qual).
Pego nela e digo:
  - A S. é marota!
  - Não, eu não sou marota! - responde ela.
  - Então, és... malandra!
  - Não, não sou malandra! Sou linda!

:D

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

70,3


Ontem pesei-me (já não o fazia há algum tempo) e esse foi o número que a balança me apresentou.
70,3kg. É muito. Mais 8,5kg que o meu mínimo pouco antes de engravidar.
Sou daquelas mulheres que ao fim de mais de 2 anos após o parto, ainda não perdeu o peso ganho na gravidez.
Pior: apesar das tentativas já aqui faladas, não me sinto verdadeiramente preparada e motivada para o perder.

Detesto não ter roupa em condições que me sirva.
Não gosto do número na balança.
Não gosto do que vejo no espelho.

Mas nada disto se consegue sobrepor à minha preguiça, ao meu estado emocional, ao meu cansaço...

Todos os dias penso em começar a alterar a minha alimentação, em deixar de comer isto ou aquilo, e substituir por esta ou aquela alternativa.
Mas logo de seguida, vou ao armário das bolachas, ou cravo um doce a alguém no trabalho.

Há um trabalho mental que preciso fazer (ou clique que precisa acontecer) para conseguir dar a volta a isto.
Até lá, tenho de dar-me por muito satisfeita por a balança não ter subido ainda mais.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Maria do Céu

Hoje a Maria do Céu faria 90 anos.

A Maria do Céu foi uma menina traquinas, muito inteligente a quem os pais não permitiram fazer mais que a 4ª classe, apesar da insistência da professora primária e apoio da família rica da terra.
A Maria do Céu era uma mulher tão despachada e trabalhadora, que os patrões acharam que uma máquina não conseguiria fazer o trabalho tão rápido como ela.
A Maria do Céu "só" casou aos 24 anos mas foi feliz mais de 60 anos com o seu Albino.
A Maria do Céu foi uma mulher dedicada ao seu marido e à sua família. Sem nunca contestar a autoridade do homem da casa, levou-o a permitir que os seus 6 filhos estudassem até quando o entendessem (numa época e zona do país onde o habitual era as crianças fazerem a 4ª classe e irem trabalhar).
A Maria do Céu era uma mulher paciente e educada mas de resposta sempre pronta.
A Maria do Céu adorava os seus netos e chamava-me, em pequenina, "o meu pintainho". Dizia que os netos eram todos bonitos mas que eu era especial! :)
A Maria do Céu partiu este ano para um descanso merecido na companhia de Deus e do seu Albino!

A Maria do Céu era a minha avó materna e foi das mulheres (pessoas) mais extraordinárias que conheci. Se um dia conseguir ser metade da mulher que ela foi, serei uma mulher feliz e realizada!

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Para mais tarde recordar #12

A S. acorda a meio da noite e começa a chamar por mim.
Chego ao quarto dela, e ela está de rabito para o ar, cara enfiada no colchão a tagarelar qualquer coisa.
Faço-lhe umas festinhas na cabeça.
    S. - Mamã, eu que estava a falar?
    Eu - Não sei, bebé. Que estavas a falar?
    S. - Num sei. Asneiras!